Dever não é poder

Quero mostrar-te, de uma forma clara, que a tua decisão, exigência ou qualquer obra não tem qualquer influência naquilo que tu tens ou és, mas todos somos o que somos pela vontade e pela graça de Deus, quer queiramos ou não.

O assunto que quero definir neste tema é que aquilo que Deus me ordena fazer é o meu dever, porém não quer dizer que o consiga. Ele me manda praticar a justiça mas eu não consigo. Então Deus ordena coisas que eu não posso praticar?

É isso que vou esclarecer e por isso farei diferença das ordenanças de Deus. A uma chamarei ordem dominante, mas a outra de ordem operante.

Vejamos a ordem dominante e a sua eficácia:

...não fostes vós que me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi.

João 15:16

Esta é a ordem dominante, a qual o autor e o consumador é Deus. Foi Ele que me escolheu ainda antes de ter nascido e quando Ele me chamou, pelo evangelho da graça, simplesmente não resisti, mas fiz o que me estava determinado.

É uma obra em que o homem não tem qualquer intervenção visto que não tem livre-arbítrio, pois está morto e não pode entender Deus.

Na verdade, não somos filhos quando decidimos ser, nem somos filhos por causa dos nossos pais, ou por herança, mas somos filhos de Deus pela única e exclusiva vontade de Deus.

Mas agora vejamos a ordem operante, a qual é a obra do homem em obediência ao mandamento de Deus:

Vós sois meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando.

João 15:14

Repara: uma diz "Eu vos escolhi", mas a outra diz "Eu vos mando". Uma é Ele que faz, mas a outra manda fazer; uma é Deus que a faz, logo, é perfeita, mas a outra é o homem que tem de fazer, pois diz "se fizerdes", logo, é imperfeita.

O que quer dizer que pode não ser feita, e esta é a diferença entre a ordem dominante e a operante. A ordem dominante é dada por promessa, obra que Deus realizará, mas a operante é dada por mandamento, obra que o homem deve fazer, mas que nem sempre faz. E porquê? Porque Deus é perfeito e o homem imperfeito.

Deus tem o poder para fazer tudo perfeito, mas o homem tem apenas o dever de fazer perfeito, coisa que não consegue. Por isso o que Deus faz é eterno, enquanto o que o homem faz é passageiro. Mas vejamos mais passagens:

...e creram todos os que estavam destinados para a vida eterna.

Atos 13:48

Porque creram? Porque para isso já estavam destinados. Tanto o crer como a vida eterna é dom de Deus que não está ao alcance do homem, pois se Deus não der a fé como vão crer?

Mas aquilo que a escritura está dizendo é: A razão porque eles creram foi porque já estavam destinados de antemão para a vida. Logo, isto é obra exclusiva de Deus em que o homem não participa e por isso não podia falhar.

Repara agora na ordem operante.

...qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, já cometeu adultério com ela.

Mateus 5:28

Este é o dever do homem, não cobiçar. Mas será que ele pode obedecer? Cada um escute a sua consciência e terá a resposta. A ordem operante falha porque a carne nunca se sujeitará a Deus, nem pode.

Porém, apesar de não teres o poder para obedecer, tens o dever de obedecer o melhor que puderes sem nunca te conformares e assim dares testemunho de quem tu és.

Repara noutra ordem operante:

Eu vos ordeno: amai-vos uns aos outros.

João 15:17

Esta é o dever de todo o cristão, repara que é uma ordem para tu efectuares ("Eu vos ordeno"), mas, quantas vezes andamos em guerras, ciúmes e discussões? Temos o exemplo da igreja de Coríntios e Gálatas. Pois embora saibamos o dever, não temos o poder para realizá-lo, a própria lei já nos mostrava isso, vê.

Todos ao que são da lei estão debaixo de maldição, porque está escrito: maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas na lei para as cumprir. É evidente que pela lei ninguém será justificado.

Gálatas 3:10-11

Isto é uma ordem operante, Deus ordenava o cumprimento da lei, mas ninguém cumpriu, e porquê?

Porque a lei é espiritual e o homem é carnal. A lei é santa, mas o homem é pecador, como poderia o pecador viver em santidade?    

Deus, na ordem operante, ordena-te mas não te obriga; guia-te mas não te arrasta; somente ordena-te o teu dever. Porém, na ordem dominante, não tens escolha, é Ele quem a faz.

A ordem dominante é ser uma nova criatura, mas a operante é andar em novidade de vida; a dominante é ser santo, a operante é viver em santidade; O dom de Deus é ter fé, mas o dever do homem é confiar; poder de Deus é ser justo, mas o dever do homem é praticar justiça.

... à igreja de Deus que está em Corínto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo,

1 Coríntios 1:2

Repara, santificados em Cristo, o que é que está em Cristo? A carne ou o espírito? O espírito claro, e é esse que é santo para sempre porque foi Deus que santificou, porém fomos santificados (ordem dominante) para agora viver em santidade (ordem operante), no entanto sempre vamos falhar.

Repara no que João diz:

Quem é injusto, faça injustiça ainda: e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, santifique-se ainda.

Apocalipse 22:11

Vês, só quem Cristo santificou pode viver em santidade, só quem Deus justificou é que pode praticar justiça. Assim também o injusto só pode praticar injustiça, é isso que lhe é próprio, assim como a árvore má não pode dar bom fruto.

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não das obras, para que ninguém se glorie. Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas.

Efésios 2:8-10

Mais uma vez repara que fomos salvos sem nenhuma obra, mas fomos salvos para fazer boas obras, que não nos salvam mas que dão testemunho para a salvação de outros.

Porém, a novidade é esta: Por mais más obras que faças não podes perder aquilo que não se perde, a vida eterna. Pois ela não depende do teu comportamento mas daquilo que Cristo fez.

A vida eterna é como o dia de ontem, nada podemos tirar ou acrescentar, pois é passado; assim também a vida eterna nada podemos acrescentar com as nossas boas obras, nem tirar com as más, pois é consumada.

Pois assim como não há méritos para a salvação, também não há culpas para a perdição.

É por isso que as obras não podem ser consideradas para a justificação, e é isso que tu fazes quando dizes que precisas fazer boas obras para seres salvo, ou para te manteres salvo.

Mas, é porque tu já és salvo que deves fazer boas obras, é o teu dever, porém, as más não faltarão.

Vou mostrar-te que por mais que Deus ordene que faças o bem, jamais o farás. Alguém dirá: Então Deus ordena-me que faça coisas que eu não posso fazer? Sim, porque se pudesses Cristo não teria vindo. Mas tudo isto acontece para que vejas que nada és, e que em ti nada há que seja bom.

E por isso Deus empurra-te para a única salvação, que é a graça de Cristo. E só Nele, por Ele e para Ele, é que podes ser uma nova pessoa livre de condenação. Porque se insistes nas obras, então vê o que te acontecerá:

Se tu ó Senhor observares as nossas iniquidades, quem subsistirá? Mas contigo está o perdão (graça), ...

Salmos 130:3-4

E outra vez:

...e não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não se achará justo nenhum vivente.

Salmos 143:2

Se Ele levasse em conta as tuas boas obras, também levaria as más, e estarias perdido, porque no céu ninguém entra sem ser justo e santo. Mas repara que Ele já não leva em conta as nossas iniquidades, porquê? Por causa da fé em Cristo, o meio pelo qual obtemos o seu perdão e acesso ao seu reino eterno.

Portanto se as tuas obras más não são levadas em conta para a condenação, logo também as boas não o são para a justificação. Porque doutra forma já não era de graça, mas pagavas o que tinhas recebido de Deus. E se é divida já não é oferta, por isso decide-te.

Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim também David declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, E cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado. Vem, pois, esta bem-aventurança ...

Romanos 4:4

Tu que trabalhas para o teu patrão, no fim do mês recebes o salário, é uma oferta que ele te faz ou é uma divida que ele tem contigo? É uma divida, e isso representa a lei.

Mas a graça é oposta, pois Paulo diz que aquele que não trabalha mas crê, é esse que recebe, e isso sim é uma oferta gratuita. Depois confirma dizendo que bem-aventurado é aquele a quem Deus não olha para os seus pecados. É porque ele não peca? Claro que não, a graça é baseada no seu amor, não no que eu faço.

E por isso acaba por dizer que esta é a bem aventurança de Deus, é quando faço o mal, os meus pecados já não são imputados por causa da fé em Jesus

Vês a novidade? Sem trabalhar alcançamos aquilo que os judeus com trabalho não conseguiram, isto é: ser justos diante de Deus.

Repara porque a ordem operante falha:

A carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita a Deus, nem em verdade o pode ser.

Romanos 8:7

Na verdade o ser humano só não obedece, porque Deus não lhe deu tal poder, e logo acrescenta que isso jamais mudará. Portanto onde falha a obra, falha a escolha, e logo não existe escolha, mas o dever de escolher o bem e a vida.

Na verdade não somos senhores dos nossos actos desde que nascemos até que morremos. Já nascemos pecadores sem pecar, e tornamo-nos santos sem obedecer. Como é isso?

Morreste pelo pecado de Adão e nasceste de novo pela obediência de Cristo, e tu não participaste em nenhuma das duas.

Alguém dirá: se a nossa obediência ou desobediência, em nada pode alterar os planos de Deus, então porque ainda fazemos o bem? Pois de qualquer maneira só a vontade dele prevalece!

Primeiro para que se revelem os eleitos, os quais quando ouvem a voz de Deus reagem obedecendo porque Deus os inclinou para ele.

Segundo para disciplina e aperfeiçoamento até que ele venha, e para que saibas que sem ele nada podes fazer e assim aprendas a depender dele em tudo e nunca a confiares em ti, como fazem os do livre arbítrio em que confiam em si mesmo, em suas escolhas e obras.

Toma atenção.

Deus, desde o principio determinou como seria as sua obras, e tudo existe por sua vontade e nada existe que Ele não queira, mas assim como Ele predestinou uns para pregarem o evangelho, assim também predestinou outros para ouvirem o evangelho.

Tanto o que prega, como o que é salvo, são projecto de Deus ainda antes que nós existíssemos. Na verdade as decisões que tomamos e as obras que fazemos em relação a Deus, não provém de nós como se tivéssemos livre arbítrio, mas é Deus que opera isso em nós.

...porque Deus é o quem opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.

Filipenses 2:13

E assim como o ímpio é dominado pela vontade de fazer o mal, porque nele está o mal, e quando o faz, faz aquilo que lhe é próprio.

Assim também o cristão deseja e quer fazer a vontade de Deus, e quando faz, faz aquilo que lhe é próprio, é isso que está em seu coração.

Pois ninguém vive por si mesmo, mas vivemos, existimos e nos movemos em Deus, ou no diabo.

Porém, tudo obedece a um projecto de Deus. Por isso a salvação não depende da nossa escolha ou do nosso trabalho, mas de Deus que nos amou e gratuitamente nos salvou de uma vez por todas.

Logo toda a escolha depende da natureza; se és boa árvore (nasceste de novo), só podes dar bom fruto (fé), mas se és má (homem natural), só podes dar mau fruto (incredulidade).

 

O resumo é:

É preciso primeiro ser (ordem dominante) para fazer (ordem operante); primeiro ser santo para poder viver em santidade; primeiro ser justo para poder praticar a justiça; etc...

Mas os incredulos negam a fé e por isso querem primeiro fazer para um dia poderem ser; pois para eles tudo depende deles, das suas escolhas e não da oferta gratuita de Deus..

Portanto, dever não é poder.

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